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As aves endémicas de São Tomé e Príncipe
As aves endémicas de São Tomé e Príncipe
As ilhas oceânicas sempre fascinaram os naturalistas. Isoladas do resto do mundo, o processo evolutivo segue aqui caminhos independentes que levam à formação de faunas e floras únicas. As novas espécies, adaptadas às condições peculiares das ilhas, designam-se por espécies endémicas: espécies que ‘nasceram’ nas ilhas e não se encontram em mais lugar nenhum do mundo. São um testemunho vivo da transformação constante dos seres vivos e é essa a razão porque as ilhas oceânicas foram uma fonte de inspiração para Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, pais da mais recente revolução filosófica: a teoria da evolução, que em 2009 festeja 150 anos.

As ilhas de São Tomé e Príncipe no Golfo da Guiné teriam certamente fascinado Darwin se ele por lá tivesse passado. Constituem um centro de endemismo de tão grande importância que as suas florestas, apesar da reduzida área que ocupam, formam uma ecoregião distinta de todas as outras ecoregiões do mundo. As aves são os representantes mais visíveis da imensa riqueza biológica das ilhas. No escudo de armas do país, São Tomé faz-se representar por um milhafre-negro (Milvus parasitus) e o Príncipe por um papagaio-cinzento (Psittacus eritachus). Todas as notas de banco têm aves e podemos também conhecer a diversidade das aves das ilhas através de colecções de postais e selos. E como embaixadores do património biológico são-tomense a escolha é mais do que justificada, já que é difícil encontrar exemplo mais claro do carácter excepcional deste património.

Principe-Sul (foto Martim Pinheiro de Melo)

São Tomé e Príncipe são as ilhas com a maior concentração de aves endémicas do mundo. Entrar nas florestas de São Tomé é entrar num mundo novo: todas as espécies que se observam só aqui existem. Com uma superfície de cerca de 1000 km2, as duas ilhas têm 28 espécies endémicas, das quais 17 só existem em São Tomé e 8 só existem no Príncipe. Este é um número espectacular pois a maior parte das ilhas de tamanho semelhante fica-se por apenas uma ou duas espécies endémicas. Para comparação, o famoso arquipélago das Galápagos, com 13 ilhas e vários ilhéus e com uma superfície total oito vezes superior, tem 22 espécies de aves endémicas, enquanto que a Madeira com uma superfície próxima da de São Tomé tem 3 espécies endémicas. A República Democrática de São Tomé e Príncipe é assim o quarto país do continente africano com maior número de espécies de aves endémicas, apesar de ser o segundo país mais pequeno do continente, depois das Seychelles. Todas as espécies endémicas encontram-se nas florestas, classificadas pela BirdLife International como áreas prioritárias para a conservação da avifauna. Em particular, as florestas do sudoeste de São Tomé foram consideradas as segundas mais importantes de todo o continente africano, incluindo Madagáscar, para a conservação de aves. Um verdadeiro tesouro mundial ainda hoje desconhecido de muitos.

Neospiza concolor (foto Martim Pinheiro de Melo)

Neste tesouro encontram-se várias formas muito interessantes como o maior tecelão (Ploceus grandis), o maior beija-flor (Dreptes thomensis) e o maior canário (Neospiza concolor) do mundo, ao lado do Íbis (Bostrychia bocagei) mais pequeno do mundo. Encontram-se espécies tão distintas daquilo que conhecemos que não se sabe a que famílias pertencem (classificadas como estando em lugar incerto: incertae sedis). Também se encontram várias espécies que divergiram recentemente de espécies continentais, constituindo exemplos claros da evolução em acção.

Muitos factores estiveram na base dos níveis extraordinários de endemismo das aves de São Tomé e Príncipe. Sem dúvida que a proximidade geográfica a um dos maiores centros de biodiversidade do mundo teve um papel determinante, na medida em que aumentou a probabilidade das ilhas serem colonizadas por espécies diferentes. O marcado relevo vulcânico levou a uma diversificação de habitats associada às variações em temperatura e pluviosidade, oferecendo assim condições para um leque variado de espécies. No entanto, na maior parte das vezes é o ‘factor humano’ que determina os níveis de biodiversidade que hoje observamos – o seu impacto pode levar tanto à extinção de espécies endémicas como à introdução de espécies exóticas.

Quando os navegadores portugueses chegaram a São Tomé e Príncipe, em 1470 e 1471, encontraram duas ilhas cobertas de floresta tropical e sem habitantes. As descrições dos primeiros colonos referem um ‘inferno verde’ – sem dúvida um paraíso do ponto de vista biológico. A destruição da floresta de baixa altitude foi rápida: em 1529 São Tomé era o primeiro produtor mundial de cana de açúcar. Apenas a floresta no sudoeste foi poupada à destruição, protegida pela inacessibilidade e uma precipitação elevadíssima. A introdução de café e cacau no início do século 19 levou a mais destruição da floresta, desta vez até altitudes de 1200 m. No início do século 20, São Tomé e Príncipe eram os maiores produtores mundiais de cacau. Após a independência, em 1975, muitas plantações foram abandonadas, e re-invadidas por floresta: a floresta secundária.

Principe - Agulhas (foto Martim Pinheiro de Melo)

Entre a descoberta das ilhas e as primeiras explorações sérias da avifauna, na segunda metade do século 19, passaram 400 anos. Ficamos assim sem saber se a colonização humana, e sobretudo a destruição da maior parte da floresta de baixa altitude, conduziu alguma espécie à extinção. No entanto, a situação actual parece favorável para as aves. Cerca de 90% da superfície de São Tomé e Príncipe está coberta por floresta, mais ou menos igualmente dividida entre floresta primária, floresta secundária e plantações de cacau e café. Estas plantações, por requererem a presença de árvores de sombra, têm uma estrutura complexa que lembra em parte a estrutura da floresta original. Nestas condições, a maioria das aves endémicas ainda é comum, com muitas adaptadas às florestas secundárias e várias adaptadas às florestas de sombra.

No entanto, esta situação é muito frágil. Dez espécies estão ameaçadas de extinção, com três espécies ‘em perigo critico’, a categoria de risco mais elevada da Lista Vermelha da IUCN: o Íbis e o Picanço de São Tomé (Lanius newtoni) e o enigmático Neospiza concolor, espécie que esteve desaparecida por mais de 100 anos após a sua descoberta em 1898. O recentemente descrito e muito raro Tordo do Príncipe (Turdus xanthorhynchus) será provavelmente uma quarta espécie a adicionar à lista das mais ameaçadas.

Turdus xanthorhynchus (foto Martim Pinheiro de Melo)

O futuro da riqueza avifaunística de São Tomé e Príncipe depende antes de mais da conservação da floresta primária, onde as aves endémicas evoluíram. Todas as aves endémicas podem encontrar-se aqui e as espécies ameaçadas de extinção dependem inteiramente deste habitat. Obviamente, a conservação da floresta primária será benéfica não só para as aves mas para toda a biodiversidade endémica terrestre são-tomense. No entanto, em ilhas de tamanho reduzido a conservação da biodiversidade não pode estar só dependente das áreas protegidas, mas tem também de ocorrer fora destas.

Com um crescimento populacional anual de 3%, a pressão sobre o meio ambiente terá tendência a aumentar. O grande desafio será encontrar estratégias de desenvolvimento capazes de conciliar as actividades humanas com o meio ambiente. E aqui o que está em causa não são apenas as espécies endémicas, mas a própria viabilidade de São Tomé e Príncipe. Em pequenos países insulares a margem para erros é pequena. Cortem-se demasiadas árvores e a erosão transformará uma ilha luxuriante num deserto estéril, destruindo ao mesmo tempo as praias que atraem o turismo... Deste modo, a manutenção de um sistema agrícola que mantenha o coberto florestal terá de formar o núcleo central de qualquer política de desenvolvimento agro-florestal. Uma das soluções poderá passar pela promoção do cultivo de cacau e café de qualidade, sempre que possível seguindo as regras da agricultura biológica, cuja procura tem vindo a aumentar. Várias espécies de aves endémicas adaptaram-se às florestas de sombra, mas são necessários estudos para avaliar qual é aqui o seu sucesso reprodutor. Pouco antes da independência, o uso intensivo de pesticidas levou ao declínio de muitas aves insectívoras. Com o relançamento da agricultura, o uso de pesticidas poderá a aumentar e, como tal, é necessário monitorizar os seus efeitos. A promoção de técnicas de agricultura biológica corrigiria de imediato este problema. Para além da agricultura, a caça pode também ter um impacto grande nas espécies endémicas. Em São Tomé e Príncipe a caça constitui uma importante fonte de rendimento para pessoas que vivem nas comunidades perto da floresta, e começa também a ser uma actividade desportiva para os mais abastados. As várias espécies de pombos endémicos são um alvo favorito podendo ser caçadas às dezenas. Julga-se que o belíssimo Pombo de São Tomé (Columba thomensis) esteja em risco por esta razão. Extremamente preocupante é o facto do Íbis ainda ser caçado.

Columba thomensis  (foto Martim Pinheiro de Melo)

As dificuldades são grandes mas em São Tomé e Príncipe não se anda de braços cruzados. A recente criação de um parque natural em São Tomé e outro no Príncipe, abrangendo a totalidade da floresta primária e utilizando a floresta secundária como zona tampão foi um passo de gigante na boa direcção. Cerca de 1/3 de cada ilha é hoje uma área protegida. Este valor extraordinário é o único capaz de garantir a conservação de um património biológico de importância mundial extremamente sensível à actividade humana. Paralelamente às accões do Governo, as duas principais Organizações Não Governamentais (ONGs) de conservação da natureza do país, a Associação Monte Pico e a Associação dos Biólogos São-tomenses (ABS) estão a trabalhar em força.

(foto Martim Pinheiro de Melo)

A Monte Pico reúne as pessoas com o maior conhecimento das florestas, que trabalham como guias da natureza mas que são sobretudo ‘as pessoas no terreno’, responsáveis pela manutenção do Jardim Botânico e das áreas protegidas, da realização de estudos de monitorização e de campanhas de sensibilização. A ABS, a parceira local da BirdLife International, foi nomeada a ‘Species Guardian’ das três espécies em perigo crítico, tendo já realizado várias campanhas de censos do Íbis, convertendo caçadores em técnicos de campo no processo. As duas associações colaboram estritamente. Os resultados da sua motivação já estão à vista com a publicação, ainda este ano, numa revista científica internacional do primeiro artigo científico sobre aves endémicas de São Tomé escrito por São-tomenses: um membro da Monte Pico e outro da ABS. Os esforços de conservação da natureza em São Tomé e Príncipe têm se revelado particularmente eficientes graças à rede de colaborações com organizações internacionais, que para além de disponibilizarem apoio técnico, podem actuar rapidamente perante ameaças específicas.

Tudo está no lugar para que o futuro das aves e da biodiversidade endémica de São Tomé e Príncipe seja risonho – argumentos para a necessidade da sua conservação não faltam, motivação e legislação também não. No entanto, a fragilidade do sistema, o crescimento populacional e a sucessão de propostas de projectos lunáticos que constantemente é necessário travar fazem com que garantir o futuro deste lugar único seja uma luta de todos os dias.

 

Martim Pinheiro de Melo*

 

 

* Percy FitzPatrick Institute of African Ornithology, University of Cape Town, África do Sul

CIBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, Universidade do Porto, Portugal

 

 

Para saber mais:

 

Associação Monte Pico - http://montepico.blogspot.com/ - Este site ilustra bem como não há mãos a medir nem falta de entusiasmo para conservação da natureza em São Tomé e Príncipe.

Gulf of Guinea Islands’ Biodiversity Network - http://www.ggcg.st/ - Apesar de não estar actualizado, este site tem uma grande quantidade de informação sobre a biodiversidade das ilhas do Golfo da Guiné, tais como listas de espécies e mapas.

Livros:

Christy P, Clarke WV (1998) Guide des Oiseaux de São Tomé e Príncipe. ECOFAC, São Tomé.

Jones PJ, Tye A (2006) The Birds of São Tomé and Príncipe, with Annobón: Islands of the Gulf of Guinea. British Ornithologists Union, Oxford.

Espécies de aves endémicas de São Tomé e Príncipe

 

As categorias da Lista Vermelha da IUCN estão indicadas: CR – em perigo crítico, EN – em perigo, VU – vulnerável, NT – quase ameaçada. O estatuto do recentemente descrito Tordo do Príncipe ainda não está oficializado.

 

 

 

Português

São-tomense

Científico

Ilha

IUCN

Íbis de São Tomé

Galinhola

Bostrychia bocagei

ST

 

CR

Pombo-verde de São Tomé

Cessa, Céssia

Treron sanctithomae

ST

 

 

Pombo-de-nuca-bronzeada

Rola, Lora

Columba malherbii

ST

P

 

Pombo de São Tomé

Pombo-do-mato

C. thomensis

ST

 

VU

Mocho de São Tomé

Quitóli

Otus hartlaubi

ST

 

NT

Rabo-espinhoso de São Tomé

Andorinha

Zoonavena thomensis

ST

P

 

Tordo de São Tomé

Tordo

Turdus [olivaceofuscus] olivaceofuscus

ST

 

 

Tordo do Príncipe

Tordo

Turdus [olivaceofuscus] xanthorhynchus

 

P

EN

Prinia de Moller

Truqui, Plá-plá

Prinia molleri

ST

 

 

 

 

Amaurocichla bocagii

ST

 

VU

Papa-moscas de São Tomé

Tomé-gágá, Jégue-jégue

Terpsiphone atrochalybeia

ST

 

 

Rouxinol do Príncipe

Chibi-peito-branco

Horizorhinus dohrni

 

P

 

Beija-flor do Príncipe

Chibi-ficha

Anabathmis hartlaubii     

 

P

 

Beija-flor de São Tomé

Celêlê, Chtrêlê

A. newtonii

ST

 

 

Beija-flor-gigante

Celêlê-mangochi

Dreptes thomensis

ST

 

VU

Olho-branco-pequeno do Princípe

Tchili-tchili

Zosterops [ficedulinus] ficedulinus

 

P

VU

Olho-branco-pequeno de São Tomé

Neto-d’olho-grosso

Zosterops [ficedulinus] feae

ST

 

 

Olho-branco de São Tomé

Olho-grosso

Speirops lugubris

ST

 

 

Olho-branco do Príncipe

Tchiliquito

Speirops leucophaeus

 

P

VU

Picanço de São Tomé

 

Lanius newtoni

ST

 

CR

Papa-figos de São Tomé

Papafigo, Joãobobo

Oriolus crassirostris

ST

 

VU

Drongo do Príncipe

Maria-palu-feiticeira

Dicrurus modestus

 

P

 

Estorninho do Príncipe

Estorninho

Lamprotornis ornatus

 

P

 

Tecelão do Príncipe

Merlo

Ploceus princeps

 

P

 

Tecelão-grande de São Tomé

Camussela

Ploceus grandis

ST

 

 

Tecelão de São Tomé

Tchim-tchim-tchôlo

Ploceus sanctithomae

ST

 

 

Canário-castanho de São Tomé e Príncipe

Pádê, Chota-café

Serinus rufobrunneus rufobrunneus

 

P

 

Serinus rufobrunneus thomensis

ST

 

 

Serinus rufobrunneus fradei

Boné

 

 

Enjoló

Neospiza concolor

ST

 

CR

 

 

 


Espécies de aves africanas com sub-espécies endémicas em São Tomé e Príncipe

 

 

Português

São-tomense

Científico

Ilha

 Ibis-oliváceo

Corvão

Bostrychia olivacea rothschildi

 

P

Codorniz-arlequim

Codorniz

Coturnix delagorguei histrionica

ST

 

Pombo-verde-africano

Cessa, Céssia

Treron calva virescens

 

P

Rola-canela

Mucanha, Muquê

Apoplelia larvata simplex

ST

 

 

 

 Apoplelia larvata principalis

 

P

Cuco-esmeraldino

Ossobó, Chama-chuva

Chrysococcyx cupreus insularum

ST

P

Coruja-das-torres

Coruja

Tyto alba thomensis

ST

 

Andorinhão-pequeno

Andorinha

Apus affinis bannermani

ST

P

Pica-peixe-de-peito-azul

Chó-chó

Halcyon malimbica dryas

 

P

Pica-peixe-de-poupa

Conóbia

Alcedo cristata thomensis

ST

 

 

Conóbia

Alcedo cristata nais

 

P

Estorninho-d’asa-castanha

Pastro

Onychognatus fulgidus fulgidus

ST

 

Tecelão-de-máscara

Canário, Gungo

Ploceus vitelinus peixoti

ST

 

 

 

 
 
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